Kuan Yin aposta na compaixão

Sexualidade e Psicologia Oriental.

kannon, Kuan Yin, Cherezing

Kuan Yin é apontada, cada vez mais, como inspiradora na luta pela igualdade de direitos civis no mundo inteiro, a qual é uma bandeira dos países mais avançados sociologicamente, inclusive, em alguns aspectos. é incluído o Brasil. As grandes religiões ou filosofias de vida no oriente foram sempre muito machistas, direcionadas à masculinidade, até a expansão rápida do culto à Deusa da Misericórdia e da Compaixão.

A própria Medicina Tradicional Chinesa, assim como similares no Japão e Coréia, deram uma abertura à igualdade de direitos civis entre os seres humanos, independente do gênero, porque o princípio dos Cinco Elementos e o equilíbrio Yin/Yang fala exatamente disso: para haver equilíbrio é preciso existir igualdade sem pré-requisito. Houve, inclusive, na história da Medicina Oriental, grupos que tentaram diminuir ou redirecionar o foco para tentar resgatar o pensamento anterior de que o homem (macho, masculino) é um ser superior e a mulher um ser inferior (incluindo aí os homens não-guerreiros, não-sangrentos e não-violentos, com estilos de vida diferenciados, por questões genéticas ou psico-emocionais). Só os recentes livros de medicina oriental explicam que Yin é feminino mas isso não significa inferior como as sociedades machistas têm ditado. De acordo com a “Lei do Karma”, respeitada por diversas tradições, religiões e filosofias espiritualistas, ninguém sabe em que corpo pode renascer nem se tem “méritos” para fazer essa escolha até o momento do próprio re-nascimento.

A doutora Kathy Phillips, da Universidade do Havaí, inclui registros da inspiração de Kuan Yin como libertadora e defensora da igualdade de direitos dos gêneros em vários dos seus trabalhos. Uma das encarnações de Kuan Yin, como a Princesa Miao Shan, cuja história é repassada de boca em boca, de geração em geração, não só na China, apesar do comunismo, mas na Ásia inteira, abre o caminho para a luta pela liberdade de expressão de todos os seres humanos reprimidos pelas sociedades machistas. Miao Shan não aceitou a ordem do pai de se casar e se refugiou em um convento para monjas budistas, naquela época nem chamadas monjas nem muito aceitas pelos budistas de carteirinha porque nos seminários só entrava homem. O pai de Miao Shan acabou mandando retirar os olhos e cortar os braços da Princesa, que se ofereceu em sacrifício para curar o pai de um terrível mal. Várias são as histórias de submissão de Kuan Yin com o objetivo de quebrar padrões exagerados das culturas asiáticas, inclusive religiosas, e hoje ela é admitida nos templos, venerada e celebrada no mundo inteiro como aquela que “ouve o choro do mundo”.

Kuan Yin é acusada de inspirar as mulheres taiwanesas a criarem um movimento contra a obrigação de casar por dinheiro e arranjos familiares, de dar poder a mulheres videntes de Cingapura contra a rígida cultura masculina daquela ilha, igualmente de ter contribuído para a evolução da mulher na sociedade chinesa com igualdade de direitos civis, e de forçar os tempos budistas a admitir uma mulher que não discrimina o ser humano pela preferência sexual porque foi ela mesma quem saiu da veneração dos altares para o dia-a-dia das ruas. É ela quem é citada por pescadores nos mares do Sul da China como aquela que socorre nos náufragos – e não um “valente caba da peste”.

O taoísmo, com bases xamânicas, sempre foi mais aberto à não-discriminação e à descrentralização das genitálias como centro de poder e superioridade humana porque a diferença entre masculino e feminino está na exteriorização física das genitálias, não nos aspectos fisiológicos, químicos e emocionais. Até o sétimo mês, o feto não tem definição dos órgãos genitais, porque isso depende de reação química que a medicina não sabe explicar, causada pelo hormônio “dehydrotestosterono” ou “DHT”. O taoísmo teve grande influência no zen-budismo japonês, que já no século XVI admitia a homossexualidade nos templos, inspirada na teoria do Yin/Yang – ainda hoje há templos que punem monges por expressar a sexualidade.

A história da liberdade homossexual no Japão, a partir do século XV, tanto entre samurais quanto entre monges budistas e o povo comum, vinculada a semelhante maneira de viver trazida dos templos budistas chineses, é registrada em inúmeros livros históricos e está diretamente relacionada com as práticas sociais xamânicas dos índios japoneses, expressadas em todos os festivais de colheta ou de estações do ano. Tal comportamento era plenamente aceito pelas sociedades, deu origem ao Teatro Kabuki, e ainda hoje a sociedade trata do assunto de forma discreta, silenciosa, sem achar que deveria ser diferente — não existia a palavra homossexual em japonês. Um dos festivais mais famosos no Japão é o do pênis (“houmen matsuri”, praticado desde o ano 1500), onde homens de todas as idades vão para as ruas, seminus, participar da festa cujo centro de atenção são enormes pênis de madeira, carregados em andores como os da igreja católica, que também serve para demonstrar o vigor físico e a “purificação do espírito”.

Livre da censura judaico-cristã e da cultura grego-romana (cheia de culpas, traumas, assassinatos e guerras), e distanciados da China por causa das guerras e disputas políticas, a cultura japonesa faz rios de dinheiro em cima do turismo internacional direcionado a esses festivais, onde o povo acredita que um homem purifica a si mesmo em contato com outro homem, exaltando o símbolo da vida, o pênis (procure no google por “japanese penis festival”. Link: http://www.yamasa.org/japan/english/destinations/aichi/tagata_jinja.html).

A cultura japonesa tem largo espaço para a devoção de Kannon, a versão masculina de Kuan Yin, conhecida há séculos na Ásia inteira como aquela que adquire a forma que desejar para se expressar, de acordo com as circunstâncias do tempo, a qualquer tempo, porque o que importa é a evolução espiritual e a compaixão humana. A grande expressão de respeito histórico no Japão é o legendário monge chamado Kukai. Sobre ele, o escritor japonês Ihara Saikako, que viveu entre 1624 e 1693, publicou o livro “O grande espelho do amor masculino” e nesse livro ele diz: “Kokai Daishi não falava do profundo prazer do amor (relações sexuais entre duas pessoas do mesmo sexo) porque temia a extinção da humanidade”. Tanto na época em que viveu como ainda hoje, as teorias de Kakai são respeitadas por todas as classes sociais especialmente porque o monge realizou grandes feitos humanitários no país, os quais ainda inspiram instituições até os dias atuais.

Já a escritora Kathy Phillips chama atenção para o fato de que as imagens de Buda mostram homens com vazilhas apontadas para cima (ego) enquanto as de Kuan Yin aparecem com o vaso aberto de cabeça para baixo, onde o necta da vida se junta às águas do mar e o mar não distingue um afogado pela preferência sexual ou pelo gênero – assim como Kuan Yin sacia a sede dos dragões dos mares sem perguntar quem são eles.

Segundo estatísticas, a religião que mais cresce no mundo hoje é o budismo (que o Dalai Lama prefere chamar de “maneira de viver”), talvez porque o budismo (e as seitas advindas) preenche um espaço aberto pela democracia, pela urgente necessidade da igualdade dos direitos civis na atualidade, e pelo vazio deixado pelas religiões católico-cristãs, mais preocupadas com assuntos políticos e até de medicina do que com o lado espiritual de seus seguidores. Esse buraco também é causado pela ideologia rígida e imutável das religiões católico-cristãs, onde é enfatizada a discriminação do ser humano pelas preferências sexuais, o castigo, o pecado, a tentativa de ditar o que a mulher deve ou não deve fazer com o seu corpo, a importância dada ao inferno e a cobrança pela veneração de um Deus que castiga – enquanto que seus líderes exigem luxo, dinheiro e pouca fé no discernimento do povo. Pelo contrário, Kuan Yin, o budismo, o shintoismo, o taoísmo e muitas outras seitas e filosofias de vida oriundas do Oriente pregam a compaixão e a igualdade por todo ser humano (e animais), sem restrição, sem censura, sem troca de favores, sem chantagens emocionais antigas, as quais já causaram a infelicidade de milhares de pessoas.

Por José Joacir dos Santos, Doutor Psicologia

Bibliografia: Buddhism, sexuality and gender, de José Ignácio Cabezón; This isn’t a picture i’m holding Kuan Yin, de Katty J. Phillips; Kukai, de Yoshito S. Kakeda; The gendering of men, 1600-1750, de Thomas King; Male Colors, de Gary P. Leupp; O grande espelho do amor masculino, de Ihara Saikako; Human Sexuality, de Spencer A Rathus.

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